Cerca de 20 milhões de crianças e adolescentes de 21 países passaram por algum tipo de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia ao longo de um período de 12 meses. O número faz parte de um relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que alerta para o crescimento das ameaças enfrentadas por crianças no ambiente digital.
O estudo “Pelos Olhos das Crianças: Como as Tecnologias Digitais Facilitam o Abuso Sexual Infantil” foi elaborado a partir de entrevistas com 21 mil participantes entre 12 e 17 anos, ouvidos em 21 países entre 2020 e 2025.
Além das vítimas de exploração e abuso sexual, a pesquisa estima que aproximadamente 9 milhões de crianças e adolescentes tenham sido pressionados a participar de conversas de conteúdo sexual ou a compartilhar imagens dessa natureza contra a própria vontade.
Outros 4 milhões teriam sofrido com o vazamento de imagens, enquanto cerca de 15 milhões foram expostos a conteúdos sexuais indesejados.
Muitas vítimas não procuram ajuda
Para os especialistas do Unicef, os números podem representar apenas uma parte do problema. Uma das principais dificuldades apontadas pelo levantamento é o silêncio das vítimas.
Mais de 40% das situações relatadas durante a pesquisa não haviam sido contadas anteriormente a outras pessoas. Entre os principais motivos para isso está a falta de informação sobre onde buscar ajuda ou a quem recorrer.
A diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell, destacou os impactos provocados por esse tipo de violência.
“Essas experiências causam profundo desgaste emocional e mental. Muitas crianças sofrem em silêncio, sem saber ao certo onde procurar ajuda. Nós não podemos ignorar isso”, afirmou.
Redes sociais concentram maior parte dos casos
As redes sociais aparecem entre os principais ambientes utilizados para a prática dessas violações. Segundo o relatório, cerca de 60% dos casos ocorreram, em média, em plataformas como Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp.
Os jogos on-line também representam uma parcela relevante. Aproximadamente 14% das ocorrências aconteceram durante atividades em plataformas de jogos.
O relatório destaca que esses ambientes podem facilitar a aproximação entre agressores e vítimas, especialmente quando existe manipulação da confiança estabelecida entre os usuários.
Agressor nem sempre é um desconhecido
O levantamento também contraria a percepção de que os responsáveis pelos abusos digitais são, na maioria das vezes, pessoas completamente desconhecidas das vítimas.
Mais da metade, ou 57%, dos casos relatados envolvia alguém que já fazia parte do círculo de convivência da criança ou do adolescente. Entre essas pessoas estavam familiares, conhecidos, amigos e parceiros.
Ao mesmo tempo, 38% das vítimas afirmaram ter conhecido o agressor pela primeira vez pela internet. O dado aponta para o uso de perfis falsos e mensagens privadas como mecanismos que podem facilitar a aproximação e a prática de violência.
Chantagem e coerção são utilizadas pelos agressores
O relatório também mostra que a violência pode ocorrer por meio de diferentes formas de manipulação. Além de oferecer presentes, dinheiro ou atenção para convencer as vítimas, os agressores recorrem à coerção e à chantagem.
Entre os relatos analisados está o de uma jovem brasileira que afirmou ter sido ameaçada pelo agressor. Ele dizia que enviaria à mãe dela mensagens antigas trocadas entre os dois caso ela não compartilhasse uma nova imagem.
Outra entrevistada relatou ter passado anos procurando na internet para verificar se imagens suas, inclusive montagens, estavam circulando sem autorização.
Brasil registra milhões de vítimas
No Brasil, 19% dos entrevistados relataram ter sido afetados por esse tipo de violência. O percentual corresponde a quase 3 milhões de crianças e adolescentes.
Apesar da dimensão do problema, menos de 1% dos casos identificados no país chegou a ser denunciado, segundo os dados apresentados no relatório.
A internet foi apontada como ambiente relacionado a 55,5% dos casos brasileiros, enquanto a escola apareceu em 24,5%.
Entre os canais digitais considerados mais associados às ocorrências estão os aplicativos de mensagens e as redes sociais, que juntos concentraram 66,5% dos relatos. O Instagram apareceu em 57,2% dos casos e o WhatsApp em 52,1%.
Os jogos on-line representaram 12,3% das ocorrências no Brasil.
Os dados reforçam a necessidade de ampliar mecanismos de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, além de facilitar o acesso das vítimas a canais seguros de denúncia e atendimento.
