Os casos de hanseníase no Amazonas registraram uma redução de 95,7% entre 1981 e 2024, segundo um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Fundação Hospitalar de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta (Fuham). A pesquisa foi publicada na última sexta-feira (24).
De acordo com o levantamento, o estado deixou de ser considerado hiperendêmico e passou a apresentar endemicidade média. Em 2000, eram registrados 154,17 casos para cada 100 mil habitantes. Em 2024, esse índice caiu para 6,65 casos por 100 mil habitantes.
Os pesquisadores atribuem a redução ao fortalecimento da vigilância epidemiológica, à descentralização dos serviços de saúde e à integração da assistência dermatológica por meio da Fundação Alfredo da Matta.
No Amazonas, o atendimento aos pacientes ocorre em diferentes níveis da rede pública de saúde. As Unidades Básicas de Saúde (UBSs), em conjunto com a Estratégia Saúde da Família (ESF), realizam a identificação precoce dos casos, exames clínicos, acompanhamento dos contatos domiciliares, testes rápidos, vacinação com BCG e monitoramento multidisciplinar.
Os casos que exigem maior complexidade são encaminhados para policlínicas, hospitais regionais e, posteriormente, para a Fundação Alfredo da Matta, referência em dermatologia e hanseníase na Região Norte. A unidade oferece exames especializados, tratamento para casos graves, reabilitação e capacitação de profissionais de saúde.
Casos ainda preocupam
Apesar da expressiva redução no Amazonas, o Brasil permanece como o segundo país com maior número de casos de hanseníase no mundo. Somente em 2024, foram registrados 22.129 novos diagnósticos, o equivalente a cerca de 12,8% dos casos mundiais.
Entre 2014 e 2023, o país contabilizou aproximadamente 309 mil registros da doença, concentrados principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste. No cenário nacional, o Amazonas ocupa a 18ª posição em número de diagnósticos.
Os pesquisadores alertam que a ocorrência de casos em crianças menores de 15 anos continua indicando transmissão ativa da doença e reforça a necessidade de ampliar as ações de vigilância e busca ativa de pacientes.
Entre 2013 e 2018, houve aumento nas notificações em razão das campanhas de diagnóstico realizadas em comunidades da região de Manaus e da Campanha Nacional contra a Hanseníase e Geo-Helmintíases, promovida pelo Ministério da Saúde em escolas. Já em 2020, durante a pandemia de Covid-19, foi registrada queda nas notificações, reflexo da redução na procura pelos serviços de saúde.
Nos últimos quatro anos, entretanto, os registros voltaram a apresentar tendência de redução.
Municípios ainda enfrentam alta incidência
Embora os indicadores estaduais tenham melhorado, alguns municípios continuam apresentando índices elevados da doença.
Itamarati, Silves, Novo Airão e Santa Isabel do Rio Negro permanecem classificados com alta ou hiperendemicidade, demonstrando a necessidade de ampliar investimentos em infraestrutura de saúde, diagnóstico precoce e atendimento especializado nessas regiões.
Outro ponto observado pelo estudo é o crescimento das formas multibacilares da doença desde 2006. Atualmente, elas representam cerca de dois terços dos novos casos registrados, indicando que muitos pacientes ainda recebem o diagnóstico em estágios mais avançados.
Os pesquisadores destacam que a predominância desses casos, associada ao surgimento de deficiências físicas em alguns pacientes, evidencia a importância de fortalecer políticas públicas voltadas ao diagnóstico precoce, especialmente em áreas de difícil acesso e entre a população infantil.
